Largada do carbono regulamentado

Um desafio dos CEOs é o gerenciamento das lacunas de competitividade do carbono construídas ao longo da história.

Pioneiro e líder mundial no uso de etanol para veículos automotivos, o Brasil anunciou a abertura de mais uma fronteira: o uso do biocombustível para geração de energia. No final de 2009 a Petrobras fez história ao trocar a fonte de energia de uma de suas termoelétricas de gás natural para etanol. Ao mesmo tempo em que a nova tecnologia de combustível flex abre uma grande oportunidade econômica para o Brasil explorar projetos de geração de energia renovável, agora a Petrobras se posiciona para capturar um benefício adicional: diminuir seu custo de carbono e aumentar exponencialmente sua capacidade para negociar créditos de carbono no mercado internacional.

Assim como a regulamentação do carbono tem obrigado países a usar a criatividade na busca de formas de melhorar o consumo de energia, ela tem forçado executivos a se perguntarem qual a melhor maneira de usar a competitividade do carbono como uma vantagem frente aos concorrentes. A resposta correta pode assegurar a longevidade de uma empresa em um mundo cada vez mais regulamentado. A resposta errada -ou, pior, ignorar essa questão- pode levar uma empresa à extinção no longo prazo. Muitos CEOs participam de fóruns setoriais e contribuem com suas perspectivas para o desenvolvimento de políticas governamentais. Muitos deles concentram-se principalmente em cumprir as regulamentações vigentes, evitando a publicidade negativa das organizações ativistas, ou em reposicionar seus produtos e serviços de forma a atrair clientes ecoconscientes. Poucos CEOs analisam de perto seus rivais e procuram fortalecer sua competitividade do carbono, identificando os pontos fortes e fracos de seu footprint, e agindo para reduzir a quantidade de CO2 que sua empresa emite em relação aos competidores. No entanto, a quantidade de gás carbônico emitido pela empresa começará a definir importante vantagem competitiva.

Um desafio comum a muitos CEOs é o gerenciamento das lacunas de competitividade do carbono criadas ao longo da história da empresa. No passado não muito distante as empresas adquiriam ativos produtivos ou elaboravam portfólios de produtos em um ambiente menos regulamentado; portanto, a competitividade do carbono era pouco considerada. Hoje em dia, a regulamentação do carbono não afeta igualmente cada empresa; ao contrário, tende a alterar as regras da concorrência. Assim, a competitividade de uma empresa é negativamente afetada se possuir ativos e produtos com grau mais elevado de CO2 do que os ativos e produtos de seus concorrentes.

A Votorantim Cimentos, por exemplo, já reduziu 18% o volume de emissões de carbono em relação aos níveis de 1990, possuindo hoje posição de liderança mundial na indústria, com 627 quilos de CO2 por tonelada de cimento produzido. A Votorantim Celulose e Papel não fica atrás: tornou-se, em 2009, a primeira empresa brasileira do setor a conquistar o certificado da auditoria internacional Carbon Footprint, ao instituir sistemática de medição das emissões de carbono ao longo de toda a sua cadeia. Através dessa sistemática, a VCP também busca identificar e implementar ações de redução de emissões ou aumento da fixação de CO2 na sua cadeia produtiva.

Outra empresa brasileira que já começa a exercer liderança nessa área é a Vale, que, dentro do Programa Carbono Vale, já começou a substituição de óleo combustível por gás natural em usinas de pelotização do Espírito Santo e de Minas Gerais, e a captura de metano para geração de eletricidade em operações da mina subterrânea Integra, na Austrália. Além disso, vem investindo em gás natural e biodiesel como substitutos do diesel e do óleo combustível em suas operações, com iniciativas como o Trem Verde (ou Trem Flex), que prevê a mistura de gás natural e diesel em suas locomotivas, e investimentos de US$ 305 milhões na produção de biodiesel de óleo de palma.

A maioria das empresas está vulnerável à exposição de carbono de duas formas: através de emissões diretas (carbono emitido pelos ativos produtivos de suas operações), ou emissões indiretas (carbono emitido diretamente pelos produtos que fabricam).

Em um mundo regulamentado pelo carbono, empresas de geração de energia elétrica são mais vulneráveis à quantidade de carbono que emitem diretamente; fabricantes de automóveis, por outro lado, são mais vulneráveis às emissões dos veículos por elas fabricados. No Brasil, estes últimos já vivenciaram o impacto da competitividade do carbono: em 2008, mais de 90 por cento de todos os veículos de passageiros vendidos eram movidos a combustível flex, uma demanda do consumidor que obrigou tanto fabricantes nacionais como internacionais a ofertar rapidamente modelos flex para manter sua fatia de mercado.

Considere agora as empresas produtoras de petróleo e gás. Como um grupo, elas são vulneráveis às políticas que restringem as emissões de carbono. Mas se compararmos a quantidade de CO2 emitido por diferentes empresas do setor, da extração ao refino, encontraremos diferenças substanciais entre elas. Buscando aumentar sua competitividade do carbono, a Petrobras está à procura de caminhos para melhorar suas taxas de emissão de CO2 por barril de petróleo produzido. Recentemente, a empresa assumiu o compromisso, pró-ativo e voluntário, de que reinjetará o CO2 associado aos hidrocarbonetos produzidos nas jazidas do pré-sal.

Entender o novo balanço da competitividade do carbono é o primeiro passo. Ajustar-se a essa realidade, reposicionando a empresa através da redução de produtos com baixa competitividade de carbono pode levar muitos anos. A Petrobras, por exemplo, precisará enfrentar vários obstáculos tecnológicos na região do pré-sal para atingir a ambiciosa meta definida para 2017, mas nesse processo ela criará inovações que a ajudarão a desenvolver uma posição de liderança ante muitos concorrentes globais.

Este tipo de inclusão da competitividade do carbono na formação do pensamento estratégico é o que fará com que as empresas cheguem à frente da concorrência num futuro próximo.

José de Sá e Jorge Leis são Sócios da Bain & Company; Sá é Líder da De Óleo e Gás para América do Sul e África Ocidental; Leis é Líder de Óleo e Gás para América do Norte.