Private equity, resultados acima da média

Os fundos de private equity surgiram para valer no mundo dos negócios há pouco mais de duas décadas, inovando nos mecanismos utilizados para financiar empresas, mudando os mercados de capitais no mundo inteiro e transformando o negócio de fusões e aquisições.

O volume de recursos captados por eles atingiu cerca de US$ 1,5 trilhão nos últimos três anos, quase o equivalente ao total captado nos dez anos anteriores. Somente em 2007, as fusões e aquisições envolvendo private equity somaram quase US$ 900 bilhões, ou cerca de 20% de todos os negócios de M&A no mundo. Há dez anos, eram menos de 5%. O porte dos negócios realizados pelos fundos também aumentou. Enquanto no passado eles almejavam empresas de menor expressão, em 2007 eles empreenderam cinco das dez maiores fusões e aquisições. Empresas líderes em seus segmentos se tornaram alvos desses investidores, como a rede Hilton (comprada pelo Blackstone) e a empresa de processamento de dados First Data (comprada pelo KKR).

Este e o próximo ano certamente presenciarão ajustes no setor, devido ao enxugamento do crédito disponível para os negócios alavancados e à diminuição do apetite de investidores por negócios de risco. Justamente em momentos como o atual, entender o que as principais empresas do setor têm feito para se diferenciar e obter retornos acima da média pode trazer lições valiosas não apenas para os investidores do setor, mas também para o mundo corporativo em geral.

Em primeiro lugar, antes de fechar o negócio, esses fundos desenvolvem uma tese de investimento muito sólida, que avalia não apenas a situação de mercado da empresa-alvo, mas também as principais oportunidades de criação de valor existentes. Com o fechamento do negócio, os gestores da empresa são envolvidos num esforço para identificar as principais alavancas para aumentar receitas e reduzir custos, seus respectivos impactos e recursos necessários para efetuar as devidas mudanças. O resultado é um primeiro plano que aponta o que deve ser feito.

Em seguida, estes bons fundos definem um plano operacional detalhado, indicando o que vai ser feito, em quanto tempo, e por quem. As oportunidades de ganhos no curto prazo são priorizadas, as responsabilidades são atribuídas de acordo com as prioridades, e a busca pelos recursos necessários para executar o plano é iniciada.

A execução do plano depende da capacidade e comprometimento dos gestores do negócio. Os fundos com gestão ativa se diferenciam ao identificar rapidamente os principais talentos da empresa adquirida, alçar-lhes a posições de influência e responsabilidade, e dar-lhes apoio e incentivos para que atinjam metas ambiciosas. Eles também ajudam a agregar valor ao negócio com sua experiência e competência. É comum encontrar nesses fundos uma rede de especialistas nas diferentes funções - vendas, marketing, finanças, operações - que dão apoio aos gestores não apenas com relação ao que precisa ser mudado, mas também como fazê-lo.

O acompanhamento dos resultados deve ter foco não apenas nos indicadores financeiros, mas também nos operacionais, que podem apontar mais rapidamente se as metas não estão sendo alcançadas. Os fundos com gestão mais ativa focam em uma pequena seleção de indicadores, em geral agrupados em um painel de controle operacional, que fazem sentido para todas as áreas da empresa. Uma equipe responsável por acompanhar todo o programa de mudanças que está sendo implementado se reporta aos principais executivos da empresa, monitorando constantemente os resultados e tomando rapidamente medidas corretivas assim que quaisquer desvios nos resultados são detectados.

Finalmente, os fundos com gestão ativa rompem com a crença geral de que estão apenas interessados em melhorar a empresa no curto prazo para vendê-la. Ao compreender detalhadamente onde estão as oportunidades de criação de valor para a empresa adquirida, os gestores ativos não hesitam em investir em novos negócios, produtos, tecnologias, geografias ou aquisições, mesmo que os frutos venham a ser colhidos somente após a venda da empresa.

A experiência da Bain mostra que vale a pena ser um gestor ativo desde o início. Investidores que preparam um plano detalhado para criar valor, e que o implementam a partir do dia zero , obtêm um retorno médio de 3,4 vezes seu investimento inicial. Este resultado é o dobro daquele de empresas que adotam essa estratégia apenas algum tempo após a aquisição, e muito superior ao retorno médio do setor, que é de 1,3 vez o capital investido.

Colaborou Silvio Marote, consultor

kicker: É infundada a crença de que fundos compram empresas só para revendê-las

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3) STEFANO BRIDELLI* (Colaborou Silvio Marote, consultor - Diretor da Bain & Company São Paulo. Próximo artigo da equipe de consultores em 21 de outubro)