Excelência operacional: Mantendo o foco em um mundo com barril a 50 dólares

Por José de Sá, sócio da Bain & Company

Mesmo antes da acentuada queda de preços no fim de 2014, empresas de petróleo e gás ao redor do mundo estavam se comprometendo com metas de rentabilidade e crescimento que pareciam difíceis de alcançar.

Preços mais baixos tornam este ambiente ainda mais desafiador, instigando empresas de petróleo e gás a seguir um caminho já conhecido de corte de custos. Aos primeiros sinais de um desaquecimento do mercado, a maioria delas pede menores preços a fornecedores, reduz as taxas diárias pagas às empreiteiras no curto prazo, atrasa e adia projetos, e desaceleram compromissos e programas de pesquisa e desenvolvimento. Estas medidas são louváveis e relativamente fáceis de implantar. No entanto, são necessárias ações mais elaboradas, que ataquem custos estruturais e produtividade, para, de fato redefinir a estrutura de custos da indústria.

Corte nos custos de curto prazo podem prover alívio imediato, mas cortes errados podem ameaçar o equilíbrio entre segurança, confiabilidade e liderança de custos decorrentes dos programas de excelência operacional. Em períodos de baixa anteriores, empresas que reduziram custos cortando atividades de manutenção ou liberando talentos valiosos pagaram posteriormente por estas decisões. Esforços da indústria para reduzir custos muitas vezes fizeram tanto mal quanto bem – como, por exemplo, nas empresas no Mar do Norte na década de 90.

Excelência operacional permanece mais importante do que nunca

Empresas que investiram em excelência operacional elevaram sua eficiência e agora estão colhendo os benefícios de operações mais enxutas: custos menores e maior produtividade. O que é extremamente benéfico em um tempo de baixa significativa nos preços. A excelência operacional permite que líderes da indústria do petróleo e gás digam e provem que eles estão operando seus ativos de maneira segura, confiável, sustentável e eficiente em termos de custo.

Decisões que afetam resultados e desempenho são tipicamente mais eficientes em organizações que estabelecem princípios claros para delegar responsabilidades de decisões para gerentes experientes nas linhas de frente. Isto difere da crescente tendência das organizações e órgãos regulatórios que tentam antecipar todas as contingências utilizando programas baseados em regras que ditam quais decisões tomar em cada situação. Muitos são os motivos que prejudicam estas organizações fundamentadas em regras. Regras, é claro, são fundamentais para uma operação segura e eficiente de equipamentos complexos e caros, e são especialmente importantes na linha de frente, onde diretrizes claras para o trabalho são essenciais. Muitas destas regras existem para melhorar a segurança e o compliance. Todavia, elas podem por vezes ter o efeito oposto, quando inibem que os gerentes reajam em situações dinâmicas, baseados em sua própria experiência e em linha com os princípios e responsabilidades da organização. Princípios simples, diretos e universais, - por exemplo, a noção de que se não for possível fazer algo de modo seguro, então é melhor não fazê-lo – são um complemento importante a um rígido catálogo de regras.

O que separa as melhores do resto?

Muitas empresas focam a maior parte de seus esforços nos primeiros elementos de um sistema de excelência operacional, ou seja, na criação de processos, práticas, etc. Companhias bem sucedidas, por outro lado, focam a maior parte dos seus esforços na implementação do sistema de gestão, executando os comportamentos desejados, ligando investimentos em excelência operacional a metas e resultados, tornando decisões eficientes e melhorando continuamente. O centro corporativo oferece os sistemas de gestão, enquanto os gerentes na linha de frente, são responsáveis por entregar resultados e melhorar a performance. Esta intersecção é o ponto chave: onde sistemas de excelência operacional são customizados para as necessidades locais e onde segurança, performance operacional e a de custos se encontram.

Transparência e accountability em custos e compliance tambémsão fatores críticos de sucesso para os programas de excelência operacional. Quando os preços baixos do petróleo espremem as margens da indústria, é ainda mais importante identificar corretamente a quem pertence cada dólar envolvido na operação. Alocação clara de orçamento e transparência de custos permitem o monitoramento eficiente, e as consequências do corte de custos, ou excesso de gastos, se tornam aparentes de imediato. O aumento da accountability financeira muitas vezes reduz os custos em até 20%, sem a necessidade de cortes em programas essenciais ou mesmo de pessoal. Transparência na compliance também é crítica. As empresas líderes estimulam os trabalhadores para observar e desafiar uns aos outros em prol da segurança, compliance e eficiência. Excelência operacional nesta área não é uma opção, é essencial.

Obstáculos à excelência

Alguns programas de excelência operacional falham por não obter o patrocínio da alta liderança. Os líderes da indústria que vem implementando programas de excelência operacional por 10 anos ou mais reconhecem a necessidade de revigorar o comprometimento dos executivos sênior para encorajar a próxima onda de melhorias.

Em outros casos, as empresas falham em adaptar ou modificar programas genéricos de excelência operacional para suas situações específicas. Um processo de criação, que envolve não apenas os experts em excelência operacional, mas também os gerentes e a linha de frente, pode ajudar a definir os objetivos corretos e a achar as soluções apropriadas. Adaptação é vital em um cenário no qual as empresas passam a adotar soluções customizadas para diferentes cenários operacionais. Na América do Norte, por exemplo, companhias globais estão descobrindo que a prática padrão para águas profundas não é necessariamente a melhor solução para explorar de forma não convencional nas regiões da Dakota do Norte e no leste do Texas.

Na fase de implementação, alguns programas não se comunicam de forma eficaz com os trabalhadores na linha de frente, que devem adotar novos comportamentos, abandonar antigos hábitos e realmente fazer a diferença na segurança e no desempenho da organização. Nenhum programa pode ter pretensões de funcionar sem um lançamento bem sucedido, que inclua road shows, nos quais executivos sênior explicam o racional por trás do programa, de forma a garantir o apoio das linhas de frente.

Operações onshore como um modelo de aplicação pragmática de excelência operacional

Excelência operacional não necessariamente requer um programa grande e caro. Enquanto operadores ao redor do mundo consideram maneiras de continuar a melhorar e tornar a produção mais eficiente, eles podem olhar para as operações onshore na América do Norte, onde estes programas, muitas vezes, emergem interativamente, como algo que se propaga culturalmente do topo das companhias para as linhas de frente. Operadores onshore trabalham com ciclos de feedback rápidos: uma melhoria em uma área (por exemplo, um procedimento de perfuração diferente) se torna aplicável em outras áreas da organização. Esta rápida difusão de insights é uma maneira valiosa de incrementar a performance.

Como a indústria depende bastante de empresas terceirizadas, a interface entre a empresa e suas terceirizadas é extremamente importante para comunicar os princípios de excelência operacional. Em operações de alto custo, como em águas profundas, as operadoras podem justificar a alocação de um representante da empresa no time terceirizado para garantir o cumprimento de seus princípios de excelência operacional. Entretanto, em um ambiente onshore não convencional, em que uma única empreiteira pode estar perfurando e gerenciando centenas de poços, as operadoras podem simplesmente não ser capazes de ter a cobertura necessária para alocar tais recursos. Nestes casos, é necessário buscar maneiras criativas de envolver as empresas terceirizadas em seus programas e encontrar incentivos para melhorar a performance. Principalmente em um ambiente de baixos preços, nos quais a operadora e a empreiteira precisam trabalhar de maneira próxima para atingir níveis de custos que a operadora pode suportar, com margens capazes de sustentar a empreiteira.

Os tempos estão difíceis para a indústria de petróleo e gás, e os baixos preços do petróleo podem perdurar por algum tempo. Os participantes da indústria terão que continuar a se planejar para atuar em um ambiente de alta volatilidade e incerteza. Agora é a hora de manter os programas de excelência operacionais firmes. Programas de redução de custos e incremento de produtividade são indissociáveis um do outro, e não iniciativas distintas. Líderes da indústria devem trabalhar para garantir o correto equilíbrio entre o planejamento de inciativas de excelência operacional, a realização de resultados e a busca contínua por melhorias. Somente assim eles podem dormir tranquilos e dizer com confiança "nossos ativos são seguros, confiáveis e eficientes em custos. Nós sabemos, e podemos provar isso".