Report
Este relatório foi elaborado em parceria entre a Bain & Company e a ABVCAP.
O estudo analisa os desdobramentos recentes do mercado para oferecer uma base sólida e abrangente sobre a dinâmica do ecossistema de private equity no Brasil. Algumas seções retomam conceitos fundamentais e contextos históricos que, embora já sejam conhecidos por profissionais experientes do setor, foram incluídos para garantir um entendimento comum e maior clareza para todos os leitores.
Os insights apresentados são resultado de uma ampla pesquisa e de entrevistas com participantes do mercado, incluindo general partners (GPs), limited partners (LPs) e outros agentes relevantes ao longo da cadeia de valor de investimentos privados. As contribuições desses profissionais foram essenciais para a construção desta análise.
Private equity no Brasil
O mercado evoluiu ao longo de mais de três décadas, saindo de um estágio inicial e incipiente para se tornar uma indústria consolidada e profissionalizada. Gestoras locais surgiram ao longo dessa trajetória e ganharam escala, passando a atuar ao lado de players globais que entraram no país. Esse processo de amadurecimento trouxe mais profissionalização, fortalecimento da governança e maior capacidade de adaptação aos ciclos econômicos e políticos.
Hoje, o ecossistema é marcado por uma ampla diversidade de gestoras e modelos de investimento. General partners (GPs) com atuação generalista operam ao lado de especialistas setoriais, enquanto as estratégias vão de buyouts tradicionais a growth equity e venture capital.
Essa pluralidade reflete a evolução do mercado e permite que empresas de diferentes perfis e estágios de maturidade tenham acesso a capital. Como resultado, o private equity (PE) no Brasil tornou-se um motor dinâmico, competitivo e essencial para o desenvolvimento econômico (Figura 1).
Notes: Uma gestora de private equity é considerada atuante no Brasil quando possui ativos brasileiros em seu portfólio. Entre 1990 e 2025, algumas gestoras deixaram o mercado brasileiro, mas, ainda assim, o número total de empresas no setor cresceu. O ano de início de uma gestora de PE corresponde ao ano de sua primeira operação, quando essa informação não é oficialmente divulgada pela própria empresa.
Sources: Industry reports; companies’ websites; lit. searchA introdução da isenção de imposto sobre ganho de capital para investidores estrangeiros em FIPs atraiu capital internacional e ajudou a colocar o Brasil de vez no mapa global de private equity. Essa reforma se mostrou um verdadeiro ganha-ganha para o país: impulsionou a entrada de recursos, elevou os padrões de governança e contribuiu para a geração de empregos. Além disso, criou incentivos adicionais para alcançar as metas de retorno.
O princípio da responsabilidade limitada dos investidores dos fundos, que garante que sua exposição fique restrita ao valor investido, reforçou a confiança e estimulou maior participação institucional.
Mais recentemente, a Resolução CVM 175 desempenhou um papel central ao consolidar a regulamentação de fundos em um único marco regulatório. Antes disso, o mercado operava sob diversas regras sobrepostas (como a Instrução 555, aplicável aos fundos em geral, e a Instrução 391, específica para FIPs), o que gerava complexidade desnecessária. O novo marco regulatório simplificou o ambiente, trouxe mais clareza para investidores e gestores e aproximou o Brasil das melhores práticas internacionais.
Em conjunto, esses avanços regulatórios reduziram ambiguidades interpretativas e reforçaram a segurança jurídica, consolidando o Brasil como um dos principais polos de private equity da América Latina. Como resultado, a indústria de PE no país investiu em diversos setores (como serviços financeiros, alimentos e saúde), adotou múltiplas teses de investimento (como crescimento de mercado, ganho de participação e estratégias de buy-and-build) e realizou saídas bem-sucedidas.
Em termos setoriais, há um amplo conjunto de investimentos distribuídos por diversos segmentos: serviços financeiros (Nubank, EBANX); alimentação e restaurantes (Domino’s, Grupo Alife Nino); saúde (Fleury, Rede D’Or); indústria (Tigre, Ultra); varejo (Hering, Cobasi); educação (Cogna, Vitru); bens de consumo (Cimed, Lola); bem-estar (Bio Ritmo, Bluefit); energia (Órigo Energia); agronegócio (Agrichem, Alvorada); saneamento (Iguá, BRK Ambiental); e telecomunicações (Winity, Vero).
Sob a ótica das teses de investimento, os aportes abrangem uma ampla variedade de estratégias de private equity, incluindo crescimento (Vivo, Arklok, Óticas Carol, AGV Logística), expansão de participação de mercado (Farmax, Frasle, NotreDame Intermédica, Aegea), estratégias de buy-and-build (Sinqia, Alloha, Cruzeiro do Sul, Smart Fit), expansão internacional (VTEX, Skala, Fogo de Chão) e melhoria operacional e de performance (Acelen, Walmart).
O ritmo de desinvestimentos também foi robusto, com diversos casos bem-sucedidos por meio de vendas para compradores estratégicos (Afya, Grupo CRM, Grupo BIG, Zee.Dog, Casa do Adubo, Easynvest), para patrocinadores financeiros (Entrevias, Camil, Leveros, WeVets), via mercado de capitais — por meio de IPOs e follow-ons (Grupo GPS, XP Inc., Petz, Hidrovias do Brasil) —, além de buyouts liderados pela gestão e pelos fundadores (Chilli Beans, Oba Hortifruti).
Em conjunto, esses exemplos reforçam o Brasil como um mercado altamente atrativo e resiliente para investimentos em private equity.
As transformações que moldaram o Brasil como o conhecemos hoje
Em paralelo ao crescimento da indústria de private equity, o Brasil também passou por transformações. Desde os anos 2000, o país registrou um crescimento significativo e hoje é a 10ª maior economia do mundo. Esse avanço resulta de fatores sociodemográficos, econômicos e regulatórios.
Aspectos sociodemográficos
O perfil demográfico do Brasil tem sido um dos principais motores da expansão econômica nas últimas décadas e continua sendo uma fonte de crescimento no longo prazo. Com uma população de mais de 210 milhões de habitantes, o Brasil é o sétimo país mais populoso do mundo.
Pelo lado da oferta, o Brasil se beneficia de uma força de trabalho crescente e cada vez mais qualificada. A população economicamente ativa deve continuar se expandindo por pelo menos mais duas décadas, oferecendo suporte contínuo ao crescimento do PIB ( Figura 2).
Além disso, os níveis de escolaridade melhoraram de forma significativa: o número de formados no ensino superior quadruplicou desde 2000, e a parcela da população com diploma universitário dobrou nos últimos 20 anos.
Pelo lado da demanda, o Brasil representa um mercado consumidor amplo e dinâmico. O aumento da urbanização, a mobilidade social e a expansão da classe média impulsionaram o consumo. A inclusão financeira também avançou de forma significativa: o percentual de adultos com acesso a serviços bancários aumentou de 68% em 2014 para 86% em 2024, enquanto o uso de cartões de crédito saltou de 28% para 52% entre 2018 e 2023, superando os Estados Unidos no mesmo período.
A conectividade digital é outro fator marcante: a penetração da internet passou de cerca de 20% dos domicílios em 2010 para mais de 75% em 2024, tornando o Brasil o segundo país do mundo em tempo gasto online e o terceiro em tempo dedicado às redes sociais.
Essa combinação de oferta de mão de obra, avanços educacionais, consumo de massa e uma população digitalmente conectada posiciona o Brasil como um mercado com capacidade produtiva e poder de compra.
Aspectos econômicos
O PIB do Brasil apresentou crescimento consistente no longo prazo, com expansão superior a 10% ao ano em termos nominais (CAGR) (Figura 3).
Note: BRL é a moeda oficial do Brasil, o real
Source: LCAHistoricamente central para a trajetória de crescimento do Brasil, o papel dos recursos naturais foi reforçado por uma transição rumo à sustentabilidade. Entre 2015 e 2024, o país adicionou mais de 100 GW de capacidade instalada de geração de energia, principalmente a partir de fontes renováveis como eólica, solar, hídrica e biomassa. Hoje, o Brasil conta com a matriz energética mais limpa entre os países do G20, com cerca de 90% da geração de eletricidade proveniente de fontes renováveis (Figura 4).
Além do setor de energia, o país está entre os maiores produtores de alimentos e grãos do mundo, é o segundo maior produtor de minério de ferro e o oitavo maior produtor de petróleo.
O ambiente empreendedor combina capacidade de inovação com maturidade do mercado de capitais. O Brasil abriga um ecossistema de inovação bem estabelecido na América Latina. Até 2025, mais de 25 unicórnios haviam surgido em setores como serviços financeiros, comércio eletrônico, logística e saúde.
O mercado de capitais também amadureceu: a consolidação das bolsas que deu origem à B3 (BM&F e Bovespa, posteriormente integradas à Cetip) criou uma das maiores bolsas de valores do mundo, enquanto o mercado de crédito triplicou desde 2018 (Figuras 5 e 6). Esse ecossistema oferece canais de financiamento para empresas em fase de crescimento e reforça a posição do Brasil como um polo de investimentos privados em mercados emergentes.
Note: BRL é a moeda oficial do Brasil, o real
Source: Anbima
Note: BRL é a moeda oficial do Brasil, o real.
Source: AnbimaAmbiente regulatório
O Brasil avançou em uma ampla agenda de reformas estruturais ao longo das últimas três décadas, o que fortaleceu de forma significativa seu arcabouço institucional e o ambiente de investimentos. Em conjunto, essas reformas representam um avanço substancial em relação aos anos 1990.
Após o Plano Real, em meados da década de 1990, iniciativas como o Acordo da Basileia (1994) e o Programa de Reestruturação do Sistema Financeiro (1995) estabilizaram o setor bancário e restabeleceram a confiança no sistema financeiro. A criação do Fundo Garantidor de Créditos (1995) ofereceu proteção adicional aos investidores. As privatizações em larga escala realizadas entre os anos 1990 e o início dos anos 2000, bem como as ocorridas entre 2022 e 2024, reduziram o papel do Estado na economia, transferindo empresas estratégicas como Vale, Eletrobras e Sabesp para o controle privado.
A partir de meados da década de 2010, uma nova onda de reformas passou a focar governança, sustentabilidade fiscal e competitividade. A Lei das Estatais (2016) fortaleceu os padrões de governança nas empresas estatais, enquanto a reforma trabalhista (2017) modernizou as relações contratuais e reduziu os custos com litigiosidade. Já a reforma da Previdência (2019), que elevou a idade mínima de aposentadoria e tornou as regras mais rigorosas para aliviar a pressão fiscal de longo prazo, foi um marco na consolidação fiscal.
Reformas recentes abordaram setores estratégicos e marcos legais fundamentais para a atividade de investimentos. O Marco Legal do Saneamento (2020) abriu espaço para a participação privada em um setor historicamente subfinanciado, enquanto a reforma da Lei de Falências (2020) tornou os processos de reestruturação mais ágeis, melhorando as perspectivas de recuperação para credores e investidores. Já a reforma tributária (2023) simplificou a complexa estrutura tributária brasileira ao unificar tributos indiretos em um modelo de IVA dual, aumentando a eficiência e a previsibilidade.
O ambiente macroeconômico altamente volátil do Brasil
Apesar dos avanços estruturais em regulação, demografia e economia, o Brasil continua sendo um mercado altamente volátil. Essa volatilidade moldou a forma como os investidores abordam o país e tem sido uma característica marcante do cenário local de private equity.
Ao longo do tempo, os GPs precisaram lidar com quatro desafios recorrentes: (1) inflação e taxas de juros estruturalmente elevadas; (2) uma moeda historicamente volátil; (3) incerteza política que afeta diretamente o ambiente de negócios; e (4) um mercado de capitais marcado por ciclos de alta e baixa liquidez. .
Taxas de juros e inflação estruturalmente elevadas no Brasil
Inflação e taxas de juros estruturalmente elevadas continuam sendo desafios relevantes. Entre 2000 e 2024, o Brasil registrou inflação média de 6,3% e taxa média de juros de 12,2%, patamares superiores aos observados em outras economias emergentes e desenvolvidas (Figuras 7 e 8).
Notes: Cálculo feito com base na média anual; os países emergentes incluem China, Rússia, México, Índia, África do Sul e Indonésia; os países desenvolvidos incluem Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Japão, Austrália, Canadá e Singapura
Sources: LCA; S&P GlobalInflação elevada e juros altos criam um ambiente desafiador para as empresas. A inflação pressiona os custos ao longo de toda a cadeia de valor, ao mesmo tempo em que dificulta o repasse integral desses aumentos aos consumidores.
Paralelamente, taxas de juros elevadas encarecem o custo do endividamento, restringem o acesso ao crédito e tornam mais caros os investimentos em expansão, inovação ou aquisições. Em conjunto, esses fatores comprimem margens, reduzem a rentabilidade e desaceleram o crescimento.
Para os investidores — especialmente em private equity — essa dinâmica reduz a atratividade do uso de alavancagem para potencializar retornos, aumentando a dependência de melhorias operacionais e da geração de valor dentro das empresas investidas.
Volatilidade cambial
A volatilidade cambial adiciona uma camada extra de risco. O real (BRL) tem sido historicamente uma das moedas mais voláteis entre os mercados emergentes (Figura 9). A taxa de câmbio frente ao dólar americano (USD) apresentou oscilações acentuadas, influenciadas pelo apetite global por risco, por mudanças nos diferenciais de juros, pelos ciclos de preços das commodities e por choques externos. Períodos de valorização frequentemente foram seguidos por fortes desvalorizações, gerando um nível de imprevisibilidade superior ao observado em mercados comparáveis.
Notes: A taxa de câmbio teórica considera o câmbio ajustado pela inflação brasileira e americana (IPCA e CPI); BRL é a sigla do real brasileiro
Source: LCAPara investidores de private equity, essa volatilidade impacta diretamente os retornos. Mesmo quando as empresas do portfólio apresentam bom desempenho em moeda local, oscilações cambiais podem corroer o valor no momento da conversão dos recursos para USD na saída do investimento. Essa incerteza torna mais complexos os modelos de valuation e o planejamento de saída, já que é difícil prever o resultado efetivo em dólares ao final do período de investimento. Como consequência, o risco cambial (FX) torna-se um fator crítico na estruturação das operações.
A incerteza política afeta diretamente o ambiente de negócios
Mudanças nas prioridades do governo, alterações regulatórias ou atrasos em reformas estruturais frequentemente introduzem incerteza para empresas e investidores. Setores inteiros, como energia, infraestrutura e educação, já passaram por mudanças regulatórias abruptas que redesenharam a dinâmica competitiva da noite para o dia. Essa imprevisibilidade eleva o perfil de risco e dificulta o planejamento de longo prazo.
Compreender como ciclos políticos e decisões de política pública impactam setores específicos tornou-se parte fundamental do processo de due diligence. Os gestores de private equity precisam administrar o desempenho financeiro em sintonia com o ambiente institucional e regulatório. Fundos que têm sucesso no Brasil costumam antecipar tendências regulatórias, manter diálogo próximo com stakeholders e fortalecer a resiliência das empresas do portfólio para enfrentar eventuais choques.
Mercado de capitais com ciclos de alta e baixa liquidez
Os períodos de alta liquidez no mercado de capitais brasileiro tendem a ser curtos, impulsionados pelo apetite global por risco e por condições domésticas favoráveis, enquanto as fases de retração podem se estender por vários anos.
O último grande ciclo de IPOs, entre 2020 e 2021, foi marcado por uma onda de empresas abrindo capital, à medida que as valuations subiam e o otimismo dos investidores atingia seu pico. Pouco depois, porém, a alta dos juros e a incerteza global fecharam a janela de IPOs, deixando muitas empresas sem acesso ao mercado acionário no Brasil (Figura 10).
Note: Inclui empresas listadas no mercado local (B3) e também listagens internacionais de companhias brasileiras
Source: Relatórios do setorOlhando para frente, o cenário para IPOs no Brasil permanece incerto. Após a intensa atividade entre 2020 e 2021, o mercado de IPOs permanece fechado, e o mercado não projeta uma reabertura relevante nos próximos dois anos. Desafios macroeconômicos persistentes, somados à aversão global ao risco, continuam limitando a liquidez para novas ofertas. Como resultado, é pouco provável que os IPOs representem uma rota confiável de saída no curto prazo, o que reforça a necessidade de os gestores estruturarem estratégias alternativas de desinvestimento.
Mesmo quando o mercado de IPOs reabre, a saída por meio do mercado público raramente é imediata. Os investidores normalmente estão sujeitos a períodos de lock-up, que os impedem de vender suas ações logo após a listagem. Pode levar vários anos até que uma participação relevante seja desfeita sem transmitir um sinal negativo ao mercado. Uma saída prematura pode gerar preocupações entre os demais acionistas e pressionar as valuations. Essa dinâmica torna os IPOs um caminho mais gradual e complexo para liquidez, exigindo paciência e planejamento cuidadoso por parte dos gestores de private equity.
Os GPs desenvolveram um playbook para operar de forma eficaz no contexto macroeconômico brasileiro.
Ao longo do tempo, nem todos os gestores conseguiram resistir à volatilidade do Brasil. Alguns deixaram o mercado ou foram consolidados; aqueles que permaneceram desenvolveram um playbook próprio para ter sucesso no país.
Entre as diversas iniciativas adotadas, quatro se destacam de forma consistente como os principais pilares dessa abordagem: (1) uso conservador de alavancagem; (2) alocação gradual de capital ao longo do tempo; (3) profunda expertise do setor e da empresa; e (4) foco no crescimento de receita e na expansão de margens, preparando o investimento para um momento oportuno de liquidez.
Uso conservador de alavancagem
O primeiro pilar desse playbook tem sido o uso conservador de alavancagem. Diferentemente de mercados mais desenvolvidos, onde o financiamento via dívida é amplamente acessível e a custos mais baixos, no Brasil as taxas de juros estruturalmente elevadas tornam a alavancagem mais cara e arriscada.
Como resultado, os gestores líderes passaram a priorizar a criação de valor por meio de melhorias operacionais e crescimento, em vez de recorrer à engenharia financeira. Essa disciplina contribuiu para que as empresas do portfólio se mantivessem resilientes e com menor nível de risco, mesmo em períodos de crédito mais restrito.
Alocação gradual de capital ao longo do tempo
A segunda estratégia-chave tem sido a alocação gradual de capital ao longo do tempo. A volatilidade cambial, especialmente as oscilações na taxa de câmbio entre o BRL e o USD, pode corroer retornos quando os investimentos ficam concentrados em um única safra ou em um único ano.
Ao distribuir os compromissos de capital ao longo de diferentes anos, os gestores reduziram a exposição a choques cambiais específicos e se posicionaram para aproveitar pontos de entrada mais favoráveis em momentos de retração, ao mesmo tempo em que diminuíram o risco de concentração em um único estágio do ciclo. Essa estratégia também oferece flexibilidade para ajustar a alocação à medida que novas dinâmicas macroeconômicas e setoriais se desenrolam.
Os gestores adotam abordagem semelhante dentro de operações individuais, estruturando os investimentos em etapas, em vez de comprometer todo o montante de uma só vez. Instrumentos como earn-outs, follow-ons e pagamentos contingentes alinham a liberação de capital ao desempenho da empresa, a metas estabelecidas ou a condições previamente definidas.
Essa abordagem faseada ajuda a mitigar riscos de queda e reforça o alinhamento com as equipes de gestão. Além disso, garante que o capital seja aportado à medida que o negócio entrega resultados e que novas oportunidades de crescimento se concretizam.
Profunda expertise do setor e da empresa
Ao longo do tempo, os gestores desenvolveram profundo conhecimento setorial. Muitos GPs no Brasil se especializaram em setores nos quais conseguem aportar conhecimento diferenciado, redes de relacionamento e capacidades específicas.
Essa especialização permite que os GPs identifiquem alavancas de criação de valor que vão além do acompanhamento financeiro, apoiando as empresas do portfólio na melhoria de operações, na expansão para mercados adjacentes e na adoção de melhores práticas de governança. A profundidade setorial tem sido fundamental para construir credibilidade junto a empreendedores, coinvestidores e LPs.
Antes de realizar um investimento, os gestores dedicam tempo e recursos significativos a uma due diligence detalhada. Esse processo vai além da análise financeira, incluindo uma avaliação aprofundada de como a empresa opera, da dinâmica de seu mercado e de seu posicionamento competitivo, além da qualidade da equipe de gestão. Compreender a visão da liderança, seu alinhamento e sua capacidade de execução é, muitas vezes, tão importante quanto analisar os números.
Os investidores com melhor desempenho se diferenciam ao conduzir uma due diligence totalmente integrada, que combina perspectivas comerciais, técnicas e operacionais em uma visão única sobre desempenho e potencial. Esses GPs avaliam e precificam riscos com maior convicção, identificam oportunidades concretas de criação de valor e traduzem a tese de crescimento em um plano de ação prático desde o primeiro dia.
Foco no crescimento da receita e na expansão de margens, preparando o investimento para um momento oportuno de liquidez
Por fim, os gestores bem-sucedidos têm se concentrado de forma consistente em impulsionar o crescimento da receita e a expansão de margens, preparando as empresas para o momento adequado de liquidez. Diante da natureza imprevisível das janelas de IPO e do ciclos do mercado de capitais local, os gestores no Brasil sabem que as empresas do portfólio precisam ser resilientes para atrair interesse em diferentes alternativas de saída.
Seja por meio de uma oferta pública, da venda para um comprador estratégico ou para outro patrocinador financeiro, ao priorizar a solidez operacional, os GPs no Brasil garantem que as empresas estejam bem posicionadas quando as janelas de liquidez se abrem, aumentando a probabilidade de saídas bem-sucedidas. Uma parte essencial dessa preparação é o desenvolvimento, desde o início, de um plano claro e robusto de criação de valor.
Os investidores com melhor desempenho cocriam esses planos em conjunto com as equipes de gestão das empresas investidas o mais cedo possível após o investimento, traduzindo a ambição estratégica em um conjunto concreto de iniciativas operacionais e financeiras. Esses planos definem o sequenciamento das ações, os responsáveis e as métricas necessárias para gerar impacto mensurável. Essa abordagem colaborativa garante alinhamento entre os stakeholders e incorpora a disciplina necessária para alcançar uma criação de valor sustentável.
A execução desses planos ambiciosos muitas vezes exige o fortalecimento das equipes de gestão e o desenvolvimento de novas capacidades — algo que os GPs no Brasil têm priorizado de forma consistente. Isso pode envolver a contratação de executivos experientes, a incorporação de expertise em áreas como transformação digital e cadeia de suprimentos, ou ainda a profissionalização das estruturas de governança. Ao promover essas melhorias desde cedo, os gestores ampliam a capacidade da empresa de executar o plano de criação de valor, reforçam a credibilidade junto a potenciais compradores e destravam valuations mais elevadas no momento da saída.
Em linha com as tendências globais, a captação de recursos tem sido desafiadora
Captação de recursos
A captação de recursos tornou-se mais difícil no Brasil recentemente devido à escassez de saídas — tanto no país quanto globalmente. Muitos fundos ainda não devolveram capital aos seus LPs, o que dificulta a retomada do ciclo de captação.
Sem distribuições, o “flywheel” do private equity perde tração, e os investidores mostram-se relutantes em comprometer novos recursos enquanto ainda mantêm compromissos pendentes. Essa dinâmica tem sido um dos principais gargalos para a indústria, ampliando os efeitos das janelas de IPO fechadas e da desaceleração do M&A no Brasil. Ainda assim, diversos fundos seguem captando com sucesso, demonstrando que há apetite por Brasil quando os elementos certos estão presentes.
Entre os fatores que mais se destacam, um track record sólido e comprovado continua sendo a principal credencial. Os LPs buscam evidências de que os gestores são capazes de atravessar os ciclos do Brasil e, ainda assim, entregar retornos consistentes. Relacionamentos de longo prazo com investidores também são fundamentais — muitas vezes construídos ao longo de décadas —, gerando confiança mesmo em períodos de incerteza. Por fim, a especialização setorial tornou-se um diferencial decisivo: os LPs valorizam gestores que demonstram profundo conhecimento e capacidade recorrente de criação de valor em setores nos quais o Brasil apresenta oportunidades estruturais de crescimento.
Ao apresentar suas teses a investidores, os GPs brasileiros bem-sucedidos combinam esses pilares em uma narrativa convincente: um histórico de resiliência, parcerias de confiança e uma estratégia clara ancorada em conhecimento setorial.
Investimentos
Ao longo do tempo, o private equity no Brasil evoluiu de forma consistente, com aumento contínuo no número de operações. Esse crescimento reflete o amadurecimento gradual da indústria e a crescente relevância da classe de ativos no Brasil.
O auge dessa expansão ocorreu entre 2020 e 2021, quando a abundância de liquidez global e um ambiente doméstico favorável impulsionaram uma forte aceleração das transações. O capital estava amplamente disponível, as valuations atingiram níveis recordes e a atividade de investimento avançou em ritmo sem precedentes, refletindo o otimismo dos investidores e o dinamismo das empresas brasileiras em busca de crescimento.
Desde então, a indústria entrou em uma fase mais cautelosa. A elevação das taxas de juros, condições de capital mais restritivas e o fechamento do mercado de IPOs reduziram o volume de transações. Nesse novo ambiente, os gestores tornaram-se mais seletivos, especialmente após a euforia de 2021, e passaram a concentrar esforços em teses de investimento em setores nos quais possuem profunda especialização e know-how comprovado para gerar valor nas empresas do portfólio (Figura 11).
Notes: Não é exaustivo; trata-se de uma amostra de cerca de 450 transações, com aproximadamente 200 saídas; não considera add-ons, real estate ou infraestrutura
Source: Relatórios do setorApesar do ambiente mais cauteloso, os GPs brasileiros ainda mantêm volumes relevantes de capital para investir quando surgem oportunidades atrativas. As valuations, que haviam disparado durante a euforia de 2020 a 2021, desde então se normalizaram, criando pontos de entrada mais favoráveis para investidores disciplinados. Esse ajuste ajudou a aproximar as expectativas entre compradores e vendedores, melhorando o ambiente geral de transações.
Ainda assim, a busca por ativos de alta qualidade continua bastante competitiva. Empresas sólidas, com modelos de negócios resilientes, equipes de gestão robustas e claro potencial de crescimento seguem atraindo forte interesse de múltiplos investidores. Como resultado, embora as oportunidades possam estar mais atrativas do ponto de vista de preço, a diferenciação continua dependendo da demonstração de expertise setorial, capacidade de criação de valor e relacionamento sólido com empreendedores.
Saídas
Mesmo em um ambiente desafiador para IPOs, o Brasil registrou um fluxo constante de saídas nos últimos três anos (Figura 12). Vendas para compradores estratégicos e transações secundárias permaneceram ativas, indicando que a liquidez é possível mesmo quando o mercado público está, na prática, fechado.
Notes: Não é exaustivo; trata-se de uma amostra de cerca de 450 transações, com aproximadamente 200 saídas; não considera add-ons, real estate ou infraestrutura
Source: Relatórios do setorEssas saídas demonstram a capacidade de adaptação dos gestores, que buscaram rotas alternativas para realizar valor mesmo em um ambiente de mercado de capitais mais restritivo. Os GPs no Brasil têm recorrido com maior frequência a vendas para compradores estratégicos, vendas secundárias para outros fundos de PE, recompras por fundadores ou famílias e até mesmo saídas parciais.
Ainda assim, a atividade de saídas não tem sido suficiente para reciclar o portfólio crescente de empresas sob gestão (ver Figura 13). O ritmo de novos investimentos nos últimos anos superou o número de desinvestimentos, gerando um estoque de ativos à espera de eventos de liquidez. Esse desequilíbrio pressiona os gestores a buscar soluções criativas para desinvestimentos e impacta a captação de recursos, já que os LPs esperam distribuições de caixa antes de comprometer novo capital.
Notes: Não é exaustivo; trata-se de uma amostra de cerca de 450 operações, com aproximadamente 200 saídas; não considera add-ons, real estate ou infraestrutura
Source: Relatórios do setorOs prazos de investimento tornaram-se mais longos à medida que os gestores aguardam janelas mais favoráveis.
Historicamente, as empresas eram mantidas por quatro a cinco anos, em média, mas esse prazo tem aumentado gradualmente. Os dados mostram atualmente uma média de cinco anos e três meses para saídas entre 2018 e 2022, que sobe para seis anos e três meses nas saídas realizadas entre 2023 e 2025 (Figura 14).
Notes: Não é exaustivo; trata-se de uma amostra de cerca de 450 transações, com aproximadamente 200 saídas; não considera add-ons, real estate ou infraestrutura
Source: Relatórios do setorEssa tendência evidencia a necessidade de visão de longo prazo e planejamento rigoroso no mercado brasileiro, onde os eventos de liquidez são menos previsíveis e exigem flexibilidade entre diferentes rotas de saída.
Essa mesma dinâmica pode ser observada no portfólio atual, que apresenta uma maior proporção de empresas mantidas por mais de seis anos e uma parcela menor de ativos investidos recentemente.
Entre 2010 e 2015, a maioria das empresas correspondia a investimentos relativamente recentes: cerca de 40% do portfólio havia sido mantido por menos de dois anos e aproximadamente 15% por mais de seis anos. Esses dados indicavam um ciclo de rotação mais acelerado, com os GPs alocando e reciclando capital de forma mais ágil.
Nos últimos anos, porém, o perfil mudou de forma significativa. A participação de ativos mantidos por mais de seis anos aumentou para 24% em 2020 e 29% em 2025, evidenciando que as saídas estão demorando mais para se concretizar.
Ao mesmo tempo, a representatividade de empresas mais recentes diminuiu: os investimentos com menos de dois anos caíram para 35% em 2020 e para 22% em 2025 (Figura 15).
Notes: Não é exaustivo; trata-se de uma amostra de cerca de 450 transações, com aproximadamente 200 saídas; não considera add-ons, real estate ou infraestrutura
Source: Relatórios do setorEssa mudança na composição do portfólio reflete a desaceleração da atividade de saídas nos últimos anos e o alongamento dos prazos de investimento. O menor fluxo de novas operações evidencia uma postura mais seletiva por parte da indústria, reforçando o foco na gestão ativa e na preparação das empresas já investidas para saídas bem-sucedidas.
Os GPs brasileiros têm buscado ativamente eventos de liquidez para sustentar níveis mais elevados de DPI (distributions to paid-in capital), mantendo, ao mesmo tempo, disciplina na execução. Em vez de acelerar vendas em situações de estresse ou aceitar condições desfavoráveis, os gestores têm priorizado a obtenção de valuations justas para seus ativos. Esse equilíbrio reflete o compromisso com a reciclagem de capital sem comprometer a criação de valor no longo prazo nem a credibilidade da classe de ativos.
Retornos
Embora os dados abrangentes sejam limitados, é amplamente reconhecido que os retornos nos últimos 15 anos foram significativamente impactados pela depreciação do BRL frente ao USD. Já em um horizonte mais curto, de cinco anos, o efeito cambial foi relativamente neutro, com impacto bem menor sobre os retornos em dólares. Para LPs internacionais, esse efeito da taxa de câmbio frequentemente corroeu o desempenho denominado em USD, mesmo quando as empresas do portfólio apresentaram crescimento sólido em moeda local. Como resultado, alguns investidores deixaram o Brasil frustrados, já que a volatilidade cambial afetou de forma relevante o desempenho e a confiança no mercado.
Ao analisar os vetores de criação de valor, observa-se que a maior parte do aumento no enterprise value historicamente decorreu do crescimento de receita e da expansão de margens, e não de arbitragem de múltiplos. Os GPs no Brasil concentram-se fortemente no crescimento das receitas e na melhoria da eficiência operacional para entregar resultados, reforçando a importância de estratégias ativas de criação de valor no mercado brasileiro e de melhorias reais de desempenho nas empresas do portfólio.
Os LPs estão otimistas em relação ao private equity na América Latina e no Brasil
Os investidores estão demonstrando uma clara mudança de foco em direção a oportunidades regionais. Uma pesquisa recente com investidores na América Latina evidencia essa inflexão: quase 70% dos participantes enxergam a região como oferecendo boas perspectivas de investimento para o próximo ano (Figura 16).
Dentro da região, o Brasil se destaca, sendo citado por mais de 70% dos investidores como o país que oferece as oportunidades mais atraentes (ver Figura 17). Esse renovado foco nos mercados locais sinaliza um movimento mais amplo de reequilíbrio dos fluxos de capital em direção aos motores de crescimento de longo prazo da região.
Ao mesmo tempo, o sentimento dos investidores nos mercados privados se fortaleceu em diferentes classes de ativos, incluindo private debt e infraestrutura. Quase metade dos respondentes identifica o private equity como a classe com as perspectivas de investimento mais atrativas para os próximos 12 meses, registrando o maior avanço em relação ao ano anterior (Figura 18).
Quando questionados sobre seus compromissos de capital para os próximos anos, cerca de 50% dos LPs indicaram planos de aumentar suas alocações na classe de ativos, sinalizando uma recuperação mais ampla da confiança dos investidores (Figura 19).
O Brasil oferece diversas oportunidades para investidores privados
Olhando para o futuro, o Brasil apresenta um cenário atrativo para investidores privados. Os indicadores macroeconômicos mostram sinais de estabilização, com a inflação em patamar de um dígito médio e as taxas de juros, embora ainda elevadas, estáveis — e o consenso de mercado aponta para uma possível redução adiante.
A dinâmica cambial pode oferecer suporte adicional. A taxa de câmbio de equilíbrio do BRL é estimada abaixo dos níveis atuais, sugerindo potencial de apreciação no médio prazo. Para investidores internacionais, essa possibilidade de valorização representa um vetor adicional de retorno, complementando a criação de valor operacional e tornando os retornos ainda mais atrativos quando convertidos para sua moeda de origem.
Além desses fatores cíclicos, o Brasil continua avançando em uma agenda de reformas estruturais que vem destravando valor há décadas. Reformas nas áreas previdenciária, tributária e regulatória têm melhorado de forma consistente a competitividade e a transparência, enquanto iniciativas em andamento devem criar novas oportunidades em diversos setores.
O Brasil também adiciona benefícios de diversificação aos portfólios globais. Em um mundo no qual os mercados desenvolvidos estão cada vez mais correlacionados, o país oferece exposição diferenciada a setores com vetores de crescimento próprios, como agronegócio e energia renovável, além de contar com uma ampla base de consumidores.
Essa exposição contribui para a diversificação de riscos e abre caminhos de crescimento difíceis de replicar em outros mercados. Para investidores dispostos a capturar essas oportunidades, o mercado apresenta potencial para retornos robustos e para que o capital privado desempenhe um papel ainda mais relevante na próxima fase de crescimento (Figura 20).
Note: Tanto o private equity quanto o venture capital são considerados formas de investimento
Source: IMFEste relatório é resultado da parceria entre a Bain & Company e a ABVCAP.
Os autores gostariam de expressar seu sincero agradecimento aos membros da ABVCAP pelo apoio incondicional ao longo de todo este trabalho, bem como a todos os gestores de fundos que generosamente contribuíram nos últimos meses, compartilhando seu tempo, dados, insights e perspectivas em diversas entrevistas. A colaboração de todos foi fundamental para enriquecer a análise e conferir maior profundidade e relevância a este estudo.
Os autores também agradecem a Pedro Nakachima, manager na prática de Private Equity, assim como a Yug Santana, Iago Mameri, Ignacio Musitu, Janio Junior, Victoria Gonçalves e à equipe de Research and Data Services da Bain por suas valiosas contribuições na preparação deste relatório.