Brief
Resumo
- IA, stablecoins, crédito privado e plataformas estão redesenhando o campo de batalha do setor bancário. Se o banco não ocupa uma posição clara de liderança em determinados produtos ou geografias, ficará vulnerável em praticamente todas as frentes.
- A confiança dos clientes se enfraquece a cada atraso, tarifa inesperada ou episódio de fraude. Os bancos precisam tratar confiança como capital — com métricas objetivas e acompanhamento direto no nível do CEO.
- Se um banco não estiver disposto a se reinventar, começará a perder relevância. A inovação precisa chegar ao mercado em semanas, não em meses.
- A complexidade se tornou um concorrente silencioso. Por isso, os bancos precisarão coordenar o ecossistema em seus próprios termos e eliminar burocracias que comprometem a execução.
Os bancos tradicionais enfrentam um dilema: embora muitos estejam registrando lucros recordes no momento, o ambiente competitivo continua passando por mudanças profundas e apresentando ameaças relevantes. Ao mesmo tempo em que o setor segue essencial para financiar o crescimento econômico, apoiar a transição energética e investir em IA, os bancos enfrentam pressões em diversas frentes. Agentic AI, stablecoins e meios alternativos de pagamento, movimentação instantânea de dinheiro e a desintermediação impulsionada por plataformas e crédito privado mudaram os requisitos para que os bancos permaneçam competitivos. Hoje, eles não competem apenas entre si, mas também com empresas de tecnologia que possuem mais dados, mais clientes e maior alcance.
O modelo tradicional de banco universal, intensivo em balanço patrimonial, está sob pressão em praticamente todas as áreas — wealth management, pagamentos, crédito e mercados de capitais. Em parte como consequência disso, os bancos tradicionais passaram de uma participação de 95% do mercado potencial de receitas no início dos anos 2000 para cerca de 80% atualmente. Até 2030, estimamos que esse percentual possa cair para apenas 65% (ver Figura 1).
Para se antecipar a essas ameaças, os CEOs precisarão olhar além das disputas do dia a dia e concentrar atenção nos temas que terão maior impacto sobre a competitividade de suas instituições na próxima década. Nesse contexto, destacamos seis áreas prioritárias para impulsionar crescimento e sucesso no futuro.
1. Concentre-se nas áreas em que seu banco pode ser indispensável. Escala de balanço ainda importa, mas operar em desvantagem de escala pode ser pior do que não ter escala alguma. Bancos líderes em aquisições já exploram uma nova fronteira em que estratégias de escala e escopo se combinam para formar um ciclo de eficiência e inovação. As combinações vencedoras unem ganhos de escala à inovação em produtos, processos e experiência do cliente, criando instituições mais eficientes e mais preparadas para crescer. Uma análise recente da Bain mostra que aquisições bancárias anunciadas em 2025 com componentes relevantes, tanto de escala quanto de escopo, registraram ganhos de valuation cerca de 30% superiores aos de transações focadas predominantemente em apenas um desses elementos.
Da mesma forma, os lucros sustentáveis tendem a se concentrar em líderes claros — por produto, segmento ou região geográfica — e não em grandes grupos financeiros. Entre os bancos de varejo dos EUA, por exemplo, há uma forte correlação entre a participação de mercado de um banco em uma determinada área metropolitana e seu retorno sobre os ativos. Escolha as franquias nas quais você pode liderar e abandone o restante.
2. Trate a confiança e a lealdade do cliente como capital. Em uma era de muitas opções, cada atraso digital, tarifa pouco transparente ou promessa não cumprida desgasta a confiança dos clientes mais rapidamente do que qualquer ataque das fintechs. No Brasil, uma pesquisa da Bain de 2025 mostrou que os consumidores avaliam os bancos digitais quase no mesmo nível dos bancos tradicionais em termos de confiança. Por isso, é fundamental medir, proteger e reconquistar continuamente essa confiança. Crie uma espécie de “balanço da confiança”, com preços transparentes, práticas justas desde a concepção dos produtos, proteção antifraude mais robusta e simplicidade radical nos momentos que geram ansiedade. Conquiste a preferência do cliente por meio de aconselhamento, antecipação de necessidades e personalização.
A questão da confiança tende a ganhar ainda mais relevância com a expansão da IA. Muitos consumidores podem se sentir confortáveis com a IA como ferramenta de recomendação, mas são mais cautelosos quando se trata de realizar pagamentos ou transações via IA, por preocupações com segurança e privacidade. Além disso, em uma pesquisa recente da Bain com consumidores, os entrevistados afirmaram confiar muito mais em marcas já consolidadas em pagamentos e varejo — como Apple Pay, PayPal e Amazon — do que nos bancos quando o assunto é comércio orientado por agentes de IA.
3. Reinvente-se antes que outros façam isso por você.
Os bancos tradicionais não estão ficando para trás em inovação porque não conseguem inovar, mas porque desaprenderam a fazê-lo. Grandes ideias precisam sair do laboratório e chegar ao mercado em meses — não em anos. O Nubank se tornou o maior banco digital da América Latina, atendendo 131 milhões de clientes, em parte graças à sua agilidade. Há muito tempo consegue lançar novos recursos em três ou quatro meses e agora usa IA para fazer isso em uma semana ou menos. Os bancos precisam resgatar uma cultura de construção e experimentação, na qual testar novas ideias seja algo esperado, e não excepcional. Entregue melhorias relevantes para os clientes em ciclos de 90 dias. Valorize a excelência no desenvolvimento de produtos e na atuação da linha de frente, com agências e equipes que fortaleçam o relacionamento com os clientes.
Promover esse tipo de transformação exige competências diferentes das necessárias para alcançar eficiência operacional. Por isso, os bancos precisarão rever seu perfil de talentos, especialmente nas áreas ligadas a IA, dados e novas tecnologias. Uma decisão central será definir quais atividades devem ser resolvidas por meio de contratação, terceirização ou parcerias.
4. Orquestre o ecossistema. Os parceiros de hoje podem facilmente se tornar os concorrentes de amanhã. Muitas das empresas que avançam sobre partes da sua cadeia de valor operam justamente sobre a infraestrutura que você construiu. Chegou a hora de assumir o papel de orquestrador do ecossistema — e não apenas de fornecedor. Defina com clareza onde você vai colaborar, competir e liderar. Monetize sua infraestrutura em frentes como APIs, identidade do cliente, risco e pagamentos. Busque parcerias com compartilhamento de ganhos e aquisições seletivas. Estruture conexões entre bancos e crédito privado nos pontos em que houver oportunidade real de criar e capturar valor.
5. Modernize o modelo de negócios — não apenas a tecnologia. Modernizar a tecnologia pode ser necessário, mas modernizar o modelo de negócios é uma questão de sobrevivência. A reinvenção precisa ser liderada pelo negócio, com foco em liberar o valor dos dados. A vantagem competitiva vem do uso de dados proprietários para criar experiências e modelos econômicos que os concorrentes não conseguem replicar. Além disso, determinados dados podem ter enorme valor para parceiros. Vá além de melhorias incrementais para competir em velocidade e capacidade de execução.
Nesse contexto, a agentic AI pode acelerar a transformação tecnológica e ajudar os bancos a repensarem sua forma de operar. A entrega da experiência ao cliente dependerá cada vez mais de uma combinação entre pessoas, sistemas digitais e agentes de IA, aprendendo e colaborando entre si.
6. Simplifique a operação para ganhar velocidade. Seu modelo operacional pode ser um sabotador silencioso. Complexidade, governança lenta e incentivos ultrapassados comprometem a velocidade e a capacidade de execução. Simplificar essa estrutura pode impulsionar uma transformação real. Trate a simplificação do modelo operacional como uma iniciativa patrocinada pelo CEO, com metas claras de velocidade, simplicidade e capacidade de execução — e não como um simples programa de redução de custos. Interrompa a evolução de processos legados que não atendam a critérios definidos, elimine camadas desnecessárias de governança e realinhe incentivos em torno de produtividade e qualidade.
Renovando a empresa
Responder de forma eficaz a esses desafios exige um conjunto de ações que produzirão resultados em prazos diferentes. No curto prazo, os bancos podem avançar adotando medidas como identificar algumas franquias estratégicas nas quais vale ampliar investimentos, lançar um painel de acompanhamento da confiança do cliente, acelerar o lançamento de novas soluções para os clientes e redefinir sua estratégia de parcerias.
Em paralelo, os bancos devem estruturar iniciativas de longo prazo. Entre elas estão posicionar o portfólio para alcançar liderança, incorporar transparência, equidade e confiabilidade aos produtos, monetizar a infraestrutura proprietária e reinventar o negócio com base em dados e velocidade de execução.
Para orientar os próximos passos, leve as seguintes perguntas decisivas para a próxima reunião da equipe executiva:
- Estamos crescendo com propósito ou apenas ficando maiores?
- Onde, exatamente, estamos perdendo a confiança dos clientes — e como vamos reverter isso?
- Quando foi a última vez que surpreendemos o mercado? O que será lançado nos próximos 90 dias?
- Em quais áreas vamos liderar o ecossistema em vez de apenas servi-lo? Quais regras do jogo precisam mudar?
- Como nossa própria burocracia está reduzindo nossa velocidade — e o que vamos eliminar neste trimestre?
O setor bancário continua sendo essencial, mas também está sob pressão. Os bancos que reconhecerem a urgência desses desafios terão mais chances de prosperar e não apenas sobreviver nos próximos anos.
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